sábado, 17 de dezembro de 2011

A chegada de Francisco





“Meu amor, sonhei que estava grávida de um menino cujo nome será Francisco...”, disse-me Marília assim que acordou. Não demorou muito, veio a confirmação desse sonho, que se tornou realidade e, assim, fui papai outra vez...
Sempre foi nosso desejo ter dez filhos, e já estávamos bem perto de nosso objetivo... Aquela gravidez era a oitava. Desde o sonho, sabíamos que seria um menino. E o nome já estava escolhido: Francisco. Alegria geral, papai, mamãe, irmãos, tios, tias, avós, todos aguardando... Tudo transcorria normalmente. Exames, diversos preparativos... Apesar de ser o oitavo, estava parecendo ser o primeiro: tal era a alegria, a expectativa, os sonhos...
Milagre da vida...
Depois de nove meses de curtição... a hora H estava chegando. Tudo bem... a barriga enorme. Mamãe, como sempre, linda... Nunca deixou de fazer seus exercícios, sua ginástica pré-parto, seus exames, o acompanhamento médico, tudo...
Eu lecionava numa escola particular em Porto Alegre e numa Universidade em São Leopoldo. Até os alunos estavam acompanhando essa reta final. Como não havia a facilidade dos celulares e congêneres, era necessário preparar todo um esquema para o caso de uma necessidade de última hora ou algum imprevisto – numa hora dessas é preciso estar preparado para tudo... Para ir para a Universidade, eu utilizava o transporte escolar, porém nesse final de gestação, comecei a ir com meu próprio carro, justamente para o caso de ter de voltar às pressas... Afinal, nunca se sabe o que pode acontecer... A secretaria estava avisada: em caso de necessidade, chamar-me imediatamente em sala de aula.
Mas as coisas sempre podem ser diferentes daquilo que programamos.
Outubro... A data provável para o nascimento estava se aproximando... Outubro... Calor, dias abafados, cansaço... Era época de provas na Universidade... Dez turmas, média de 50 alunos por turma... provas e mais provas para serem elaboradas, aplicadas e corrigidas. Na escola, a mesma coisa, com o agravante das reclamações de pais pelas notas baixas dos filhos, como se a culpa pelo desleixo dos filhos fosse minha...
Naquele dia, tudo estava tranquilo. Tranquilo até demais. Depois de conversar, analisar a situação, ponderar e consultar a barriga, resolvi, excepcionalmente naquele dia, por estar muito cansado, não ir com meu carro para o trabalho. Iria com o transporte escolar. Dessa forma, poderia descansar um pouco, e até tirar uma soneca, durante a viagem... recuperar, assim, um pouco de energia... Deixei o carro estacionado na frente de casa, abastecido, prontinho...
Na hora de sempre a “Veraneio” chegou e lá fui para a faculdade...
Veraneio - grandes viagens...
Depois de tomar um cafezinho na sala dos professores e apanhar o material, calmamente me dirigi à sala de minha turma. Aula iniciada, chamada sendo feita... Não eram passados nem dez minutos... Chega a notícia. Um funcionário, correndo, veio me avisar que telefonaram de casa solicitando minha volta imediata, pois o bebê estava chegando...
Claro que, tendo ido sem meu carro, era mais difícil voltar, porém eu já previra essa possibilidade. Numa situação assim deve-se pensar em tudo e sempre ter um plano B.
BR 116 - S.Leopoldo
Chamei imediatamente o motorista da Veraneio e ele prontamente me levou de volta. Nunca vi uma Veraneio andar tão rápido... Estrada vazia, pouco movimento no horário, mas me pareceu infinitamente mais comprida...
Ao chegar a casa, tudo já estava prontinho. Minha sogra lá estava e ajudara a providenciar tudo. Apanhei as chaves do carro, as malas e lá fomos nós. A doutora já fora avisada.  A barriga estava pesada, e o Francisco, apressadinho, querendo nascer ali mesmo... Estava sendo tudo rápido demais... Quando a futura-mamãe sentou-se no banco do carro, deu-me a preocupante notícia: “Amor, acho que não vai dar tempo de chegarmos ao hospital”... Foi aí que a correria começou... e a tremedeira também... apesar de toda experiência anterior, essa era como se fosse a primeira vez...
Meu carro, na época, era um “discreto” fusca, cor de laranja, carinhosamente apelidado de Rodolfo (não me perguntem por quê)... Apesar de sua cor, era ajeitadinho... rodas e direção esportivas, bancos anatômicos, surdinas especiais, motor turbinado... coisas da época...

Rodolfo...
Saí em disparada com o fusquinha... nervosismo, pisca alerta ligado, mão na buzina, sogra nervosa, passando sinais fechados...
Eis que, numa das esquinas, parou ao meu lado uma moto cujo condutor percebeu que havia algo acontecendo e foi a minha frente, como se fosse um batedor, abrindo caminho... mais correria... mais nervosismo... numa hora dessas o tempo parece que se espicha, as ruas tornam-se mais extensas, as distâncias aumentam...
O hospital ficava no outro lado da cidade... àquela hora o trânsito até que era razoável, mas parecia um caos devido ao nervosismo da situação. Para quem conhece Porto Alegre, eu estava no bairro Floresta e precisava chegar na Avenida Ipiranga. No caminho, o Francisco não parava de dar seus sinais... forçava... numa dessas, mexeu-se de tal forma que quase nasceu ali mesmo... Consegui entrar, finalmente, no Hospital de Clínicas... Parei o carro na porta da emergência, até hoje não sei quem levou meu carro para o estacionamento... Com todo cuidado possível, ajudei a Marília a chegar ao elevador. Uma subida interminável de 13 andares... Para sair do elevador, tive de pegá-la no colo... Nossa como estava pesada!!!  Mas numa hora dessas as forças se multiplicam...

Linda, como sempre...
Com a Marília tudo estava bem a não ser pelo fato de já estar quase dando à luz ali mesmo. Coloquei-a numa cadeira e fui ao balcão comunicar que se tratava de uma emergência... que o bebê estava nascendo...
Pois foi aí, nesse exato momento que comecei a perder minha calma... a atendente olha para a Marília e, tranquilamente, sem pressa alguma, diz que eu deveria manter a calma já que a mamãezinha “não estava com cara” de quem estava tendo um filho... que as coisas não eram assim... que os papais sempre exageravam... e outras coisas dessa natureza... Realmente a Marília sempre foi (e ainda é) uma mulher excepcional. Não é do tipo que se entrega, não é do tipo que faz manha, não é do tipo que se amedronta, não é do tipo que reclama... pelo contrário, é uma mulher de fibra, de determinação, de coragem...
Não restava outra alternativa, e resolvi, então, fazer alguma coisa, já que meus argumentos não estavam sendo ponderados... examinei o local rapidamente e vi uma salinha, ao lado, que deveria ser uma sala de exames... com maca, lavatório e outros apetrechos... Peguei a Marília no colo, levei-a para essa salinha, coloquei-a sobre a maca... quando estava lavando as mãos, entra uma enfermeira reclamando que não poderíamos estar ali... entretanto, quando viu a situação... saiu tresloucada pedindo ajuda... –“tem uma criança nascendo aqui! tem uma criança nascendo aqui!”...

Hospital de Clínicas
Outra enfermeira entrou na salinha e disse que devíamos ir imediatamente com aquela maca para a sala de partos... Não houve tempo sequer para a Marília tirar o vestido que estava! Eu fui puxando a maca, e a enfermeira conduzindo... ao chegar na entrada de um corredor, Francisco resolveu vir o mundo, ali mesmo... apressado, não quis esperar mais...
Ele nasceu praticamente sozinho... só com a enfermeira e eu ali presentes... Acho que ele não estava gostando daquela confusão e quis pôr um fim naquilo tudo. No corredor, sobre a maca...
Quando a doutora chegou, só teve o trabalho de cortar o cordão umbilical... Francisco já mamava tranquilamente...
Por causa dessa situação, eu acabei presenciando tudo, ajudando, segurando, amparando... e, quando tudo já estava entrando numa rotina normal, veio a exigência para que eu me retirasse do local... Evidentemente que eu não quis sair, afinal Francisco já nascera, já estava quase tudo resolvido... faltavam apenas os procedimentos finais, retirada da placenta, exames e outros...
Mais confusão... um doutorzinho (no tamanho e na experiência) chegou e começou a xingar as enfermeiras dizendo que havia outros partos para serem feitos, que era um absurdo aquela confusão causada, que eu devia me retirar, falando alto e vociferando, depois chamou um segurança para me retirar da sala... Mais uma vez tive de “armar um barraco”, como se diz... eu estava ali desde o início, eu fora o pai-enfermeiro-auxiliar-ajudante. Se alguma contaminação pela minha presença fosse possível, isso já acontecera, e eu não quis sair... e não saí... a discussão só foi acabada com a chegada da nossa médica que viera em meu auxílio na pendenga que se instalara...

Procedimentos de praxe, Francisco saudável, mamãe em ótimo estado... aliás em estado tão ótimo que ela mesma, depois de ter dado à luz, levantou-se da mesa de parto e foi, caminhando,  fugindo das enfermeiras, dar a notícia e acalmar minha sogra que estava, nervosa, na saleta de espera. As enfermeiras (e todos que ali estavam) não acreditavam no que viam... Ninguém acreditava... Aquela mulher que, poucos minutos atrás, chegara com uma enorme barriga, com um filho prestes a nascer, ali estava, em pé, caminhando... Mais confusão... (Eu disse, a Marília é fantástica, é especial...).
FRANCISCO

Na manhã seguinte, já fomos embora, para casa. Nem houve tempo para qualquer visita no hospital...
Em casa, a Marília continuou fazendo o trabalho que tinha deixado na máquina de escrever (não havia computadores naquela época, pelo menos os de uso pessoal).
Francisco, uma criança saudável, forte e lindo (como é até hoje) recebeu suas primeiras visitas já em casa...
E essa foi apenas mais uma das grandes emoções pelas quais passei...

Bebê lindo...

Desde cedo interessado por ferramentas...

Sem comentários...

 
Colorado, sempre...


Lobinho...


Se achando... hehehehe

Chico, hoje...

Um comentário:

  1. Emocionante! Tens uma família muito linda! Conheci o Chico dentro de um ônibus, ao acaso... já o conhecia por fotos - através do Gustavo (que ainda não conheço pessoalmente e que tanto gosto...)
    Parabéns! Felicidades!
    Karen Franke.

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